
Com informações da BBC.A morte de Alice Webb, uma mãe de cinco filhos de 33 anos, em setembro de 2024, após um procedimento de Brazilian butt lift (BBL) não cirúrgico, trouxe à tona um intenso debate sobre a regulamentação do mercado de procedimentos estéticos no Reino Unido. O incidente, ocorrido em uma clínica temporária instalada em um salão de beleza alugado, marcou a primeira morte registrada no país associada a um BBL não cirúrgico, e um inquérito judicial está previsto para determinar a causa.
O setor de cosméticos injetáveis no Reino Unido tem experimentado uma rápida expansão, com a oferta de procedimentos em locais variados e muitas vezes improvisados, como salões de beleza, escritórios alugados e até quartos de hotel. Diferentemente de outros países europeus, o Reino Unido possui um dos mercados menos regulamentados, permitindo que praticamente qualquer pessoa se qualifique para aplicar preenchedores dérmicos e oferecer esses tratamentos ao público.
Essa falta de regulamentação tem gerado uma série de complicações graves. Investigações revelaram profissionais dispostos a injetar grandes volumes de preenchimento em salas improvisadas, além de oferecer medicamentos de venda sob prescrição sem consulta médica adequada e vender injeções para emagrecimento sem identificação via redes sociais. Dezenas de mulheres relataram dores intensas, infecções e hospitalizações. Casos como o de Joanne, que desenvolveu sepse após um BBL não cirúrgico em junho de 2024, e de Louise Moller, hospitalizada com sepse em outubro de 2023 e que precisou remover tecido necrosado, exemplificam os riscos. Ashton Collins, diretora da organização Save Face, que credencia profissionais e clínicas, descreve a situação como “tão horrível que parece um filme de terror”.
A indústria passou por uma transformação, com procedimentos como preenchedores dérmicos e Botox sendo direcionados a um público mais jovem e divulgados como tratamentos estéticos de rotina, impulsionados por redes sociais e reality shows. Essa percepção, aliada à oferta em salões de beleza, faz com que muitos consumidores priorizem conveniência e preço em detrimento da segurança e das credenciais dos profissionais. Pesquisas de Alexander Zargaran, cirurgião plástico do NHS, indicam um crescimento exponencial de profissionais de Botox, com a proporção de esteticistas não médicos dobrando entre 2023 e 2025, e uma concentração maior desses serviços em comunidades mais pobres. A fiscalização é fragmentada, como evidenciado pela dificuldade de Janet Taylor em obter justiça para sua filha Louise Moller, devido a questões de jurisdição policial envolvendo Ricky Sawyer, um profissional irregular que foi proibido de atuar apenas após anos de denúncias e investigações.
Diante desse cenário, governos da Escócia e da Inglaterra anunciaram planos para endurecer a regulamentação do setor, com a Lei de Saúde e Assistência de 2022 concedendo poderes para criar um sistema de licenciamento. No entanto, o caminho para a implementação completa é longo, exigindo nova legislação, regulamentos detalhados e recursos para as autoridades locais. Há mais de uma década, o relatório de Sir Bruce Keogh já alertava que os preenchedores dérmicos representavam “uma crise prestes a acontecer”, e Andrew Rankin, diretor-executivo do Joint Council for Cosmetic Practitioners (JCCP), reconhece que a autorregulação voluntária fracassou. A questão central, portanto, não é a falta de alertas, mas sim o desafio contínuo de garantir que as novas regras sejam efetivamente fiscalizadas e cumpridas para proteger os pacientes.
Com informações da BBC.