Lucas Tors questiona o que é ‘roupa de homem’ e transforma a própria imagem em manifesto contra padrões de gênero

Redação SP
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O multifacetado Lucas Tors inicia uma nova fase em sua trajetória ao transformar a própria imagem e arte em um manifesto direto contra as imposições de gênero. Marcando o anúncio do EP “PECADOR“, o futuro projeto traz canções autorais e inéditas, uma estética visual impactante e registros do fotógrafo Rafael Zenith – conhecido por clicar nomes como Jade Picon, Sheron Menezes e Nanda Costa. A imagem andrógina não é apenas um conceito estético passageiro neste novo momento, mas é o reflexo de um longo processo de cura e de afirmação de identidade.

A desconstrução pessoal que culminou no momento atual veio após anos de conflitos internos, ansiedade e medo do julgamento alheio. Lucas relembra que, aos 8 anos, ao interpretar o Rei Arthur no teatro usando legging e lápis preto nos olhos, sentiu um pânico profundo diante da família. Por mais de 14 anos, o medo de apanhar na rua, ser rotulado ou humilhado o fez reprimir quem realmente era, temendo inclusive atitudes simples como expor o corpo no vestiário ou usar um cropped. A virada de chave aconteceu em 2025, após três anos e meio de psicanálise e desconstrução das expectativas sociais sobre o que é “ser homem”.

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“Eu costumo dizer que a minha identidade não surgiu, mas acordou. Deixei meu verdadeiro eu adormecido por tantos anos por medo do julgamento e, principalmente, medo do linchamento. Em 2025 eu me encontrei num limbo: o que tô enxergando no espelho é um reflexo verdadeiro ou uma percepção criada pelo desejo de ser aceito? A psicanálise e o estudo me ajudaram a acordar”, revela.

Estética andrógina e a aceitação

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Assumir a androginia passou a ser encarado por Lucas como um propósito inegociável de existência, um posicionamento ético diante de um sistema fundamentado em regras rígidas. Ele analisa que a rejeição e a homofobia frequentemente nascem do incômodo e do medo que pessoas presas a mentes machistas têm ao encarar a liberdade alheia. Para o artista, a decisão de não aceitar mais ser rebaixado resultou no afastamento de círculos sociais rasos e na busca pelo respeito pleno.

“Se o fato de eu vestir um cropped, usar brincos e passar base no rosto incomoda tanto, quer dizer que eu lembro uma mulher e isso causa ódio em uma cabeça machista. É um pré-requisito obrigatório para viver no meu corpo ser eu mesmo, difundido com minha energia masculina e feminina. Respeito é a linha tênue que separa o animal irracional do racional, que deveria ser o ser humano. Sabemos que de racionalidade tampouco esbanjamos, por isso me afastei de inúmeras pessoas e grupos de conhecidos,  dos quais pensei ter uma amizade genuína, quando na verdade as únicas pautas que surgiam na roda eram de como eu era diferente e quais seriam minhas preferências sexuais. Chegou a hora de devolver o constrangimento, com arte, e eu sou ótimo fazendo isso”, afirma. Ele ainda completa: “Não gosto de ser rotulado e muito menos que deduzam minha orientação sexual por causa das minhas roupas”. 

Novo EP 

O título do futuro EP, “PECADOR“, reflete o rompimento com a moralidade tradicional e os dogmas religiosos do passado. Criado sob a doutrina católica, o cantor precisou ressignificar a culpa e o medo da “punição divina” que sentia aos 16 anos. Hoje, como um artista politizado, ele faz questão de separar crenças individuais, que respeita, de narrativas colonizadoras e dominantes, usando sua música para questionar padrões impostos. “Eu cresci na igreja católica, sempre fui ensinado que homem era pra mulher e mulher pra homem, ensinado desde cedo em como mexer as mãos, qual o tom da risada e quais roupas deveria usar”, declara. 

Ele ainda completa: “Pecador traz a analogia de viver em uma sociedade composta pela narrativa colonizadora cristã e ainda assim me expressar da forma que eu quiser. Se fosse em outras épocas, eu seria sim visto como um pecador por toda a sociedade e poderia ser até perseguido. Jamais vou atacar a fé de ninguém, mas busco criticar narrativas. Narrativa é uma arma poderosíssima que influencia em massa, e se me influenciou à força, tenho todo o direito de criticar e recusar”.

No aspecto conceitual, o EP apresenta histórias amorosas não heteronormativas e símbolos que desafiam as noções engessadas de masculino e feminino. A faixa principal, “PAHOY“, funciona como o grande motor dessa proposta visual e poética. “A identidade visual é a fusão dessas duas energias opostas, que nunca foram separadas. Essa dualidade é só mais uma narrativa construída para causar guerra. A performance de gênero é ensinada e ensaiada. Não gosto e não aceito isso, então não trago pro meu trabalho”, explica.

Sonoridade sem fronteiras e novos caminhos solo

O projeto irá reunir 5 faixas inéditas gravadas em espanhol e inglês, trazendo sonoridades que transitam entre reggaeton, R&B, afro beat, salsa, bachata, funk, música eletrônica e pop, além de colaborações com artistas brasileiros. A escolha de cantar em idiomas estrangeiros resgata memórias de sua infância na fronteira do Brasil com o Uruguai. Lucas conta que aprendeu inglês em solo uruguaio e que, por se sentir julgado no Brasil e no Líbano quando criança, acabou associando essas línguas a um refúgio de expressão livre.

Esta nova era marca também a transição definitiva para a carreira solo, após o término da dupla de reggaeton que mantinha com seu irmão mais velho, Leonardo Tors. Entrar no estúdio sozinho foi um processo que se transformou em um ritual individual de criação, embora faça questão de ressaltar que a parceria e o afeto com o irmão continuam vivos para projetos futuros. 

Com altas expectativas para os próximos passos, o multiartista visualiza o novo momento da carreira não apenas como um marco, mas como um convite para que o público também se sinta livre de amarras. “Minha maior expectativa é ser tão livre de rótulos que as pessoas se sintam bem, junto comigo, por serem quem são. Eu quero liberdade pras consciências. Todos podem ser como sentirem, desde que não agrida ninguém. E claro, quero dançar muito em cima do palco, ainda”, finaliza.

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