
O envolvimento do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro na defesa jurídica do policial militar acusado de matar Ana Clara Machado, de 5 anos, tornou-se um dos temas mais sensíveis da corrida eleitoral de 2026. A revelação e a subsequente exploração desse fato por adversários políticos trouxeram à tona discussões complexas sobre os limites da atuação profissional de figuras públicas, a garantia do direito à defesa e as políticas de segurança pública no estado do Rio de Janeiro.
O caso remonta a fevereiro de 2021, quando o PM Bruno Dias Dellaroli efetuou disparos de fuzil na comunidade Monan Pequeno, Niterói, atingindo a criança. Segundo denúncia do Ministério Público, os tiros foram dados em direção a uma residência, assumindo o risco de matar. A defesa de Dellaroli argumentou que os policiais participavam de uma operação de combate ao tráfico de drogas. Foi neste contexto que Flávio Bolsonaro, no exercício da sua profissão de advogado, ingressou na equipe de defesa do policial.
Documentos judiciais registram a assinatura de Flávio em recursos que tentavam, entre outras medidas, impedir que o caso fosse levado a júri popular e solicitavam a retirada de qualificadoras, como a de que a vítima não teve chance de defesa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou os pedidos formulados pela defesa e manteve o encaminhamento do réu ao Tribunal do Júri. Juridicamente, a atuação de Flávio Bolsonaro é amparada pelas garantias constitucionais que estabelecem o direito à ampla defesa para qualquer indivíduo acusado de um crime, independentemente da gravidade ou da repulsa social que o ato possa gerar.
No entanto, no terreno da política, a situação adquire contornos mais delicados. Durante o debate do 2º turno, o presidente Lula questionou a coerência do discurso de Flávio Bolsonaro sobre segurança pública com sua atuação profissional. “Você acha que quem defende um assassino de criança vai te defender?”, provocou a campanha adversária no horário eleitoral. A estratégia visou contrapor a retórica tradicional de “lei e ordem” associada a Flávio com o papel que ele desempenhou para proteger um agente do Estado acusado de uso excessivo e letal da força contra uma pessoa inocente.
O que Flávio Bolsonaro diz sobre defender um acusado de assassinar uma criança
Por outro lado, aliados de Flávio ressaltam que o trabalho de um advogado não significa endosso ao crime investigado, mas sim a garantia do devido processo legal. A narrativa política levanta a tensão sobre o respaldo irrestrito aos agentes de segurança. Enquanto uns apontam que defender policiais em situações de letalidade é parte de um compromisso com a categoria que enfrenta a violência nas ruas, outros criticam o que consideram uma blindagem de maus policiais.
A complexidade aumenta ao se observar que, além deste caso específico, relatórios e processos indicam a participação da equipe jurídica do parlamentar na defesa de outros policiais réus por homicídio, traçando um padrão de atuação advocatícia. Para especialistas em ciência política, o episódio demonstra como o passado profissional de um candidato pode se transformar em um ponto focal de escrutínio. A tentativa de Flávio de evitar o aprofundamento do tema durante o debate evidenciou o potencial de desgaste que a associação com a morte de Ana Clara carrega perante a opinião pública. O caso continua aguardando desfecho nos tribunais, enquanto suas reverberações moldam a reta final do embate eleitoral mais polarizado dos últimos anos.