
Um núcleo correspondente a cerca de 38% da extensão potencial da Amazônia permaneceu coberto por florestas ao longo dos últimos 3,3 milhões de anos. No entanto, essa estabilidade histórica pode se transformar em vulnerabilidade diante das transformações climáticas previstas para os próximos anos.
Pesquisadores do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) analisaram a distribuição de vegetações tropicais desde o fim do Plioceno até o Holoceno tardio e projetaram cenários para o período entre 2041 e 2060. Os dados apontam a retração das florestas e o avanço de savanas e formações abertas. O alerta central dos cientistas se refere à velocidade do processo: transformações que levariam milhões de anos para ocorrer na natureza podem ser consolidadas em poucas décadas.
O estudo, assinado pelos pesquisadores Ubirajara Oliveira e Britaldo Silveira Soares Filho, foi publicado no Journal of Biogeography. A metodologia utilizou dados paleoclimáticos para reconstituir a trajetória da vegetação tropical, identificar alterações de conectividade entre biomas e mapear áreas de estabilidade contínua.
Para o futuro, a pesquisa avaliou dois cenários de emissões de gases de efeito estufa. No panorama de emissões mais altas, a projeção aponta perda de até 38% da área florestal da Amazônia. Segundo Ubirajara Oliveira, a mudança rápida impactará a biodiversidade, pois poucas espécies têm capacidade de adaptação em prazos curtos.
A pesquisa explica que áreas historicamente estáveis, como o núcleo de 38% mantido na Amazônia, podem ser as mais frágeis. “Apesar de parecer contraintuitivo, esse núcleo estável pode ser a parte da Amazônia menos resistente”, explica Ubirajara Oliveira. “Milhões de anos com o clima e a vegetação relativamente estáveis podem ter selecionado espécies e linhagens evolutivas que são muito adaptadas a determinadas condições. Assim, elas podem ser muito mais sensíveis do que as que viveram em locais que mudaram muito ao longo do tempo. A Amazônia, na verdade, é a região que mais nos preocupa, pois pode ser mais vulnerável que as demais”, reflete o pesquisador.
Em contrapartida, a Mata Atlântica apresenta histórico de oscilações climáticas, com 56,43% de seu território classificado como de elevada instabilidade. Essa dinâmica histórica pode ter gerado maior resiliência biológica na região. No entanto, o cientista ressalta que o bioma enfrenta um risco imediato decorrente da intervenção humana. “Sua vulnerabilidade atual se justifica, principalmente, pelo desmatamento histórico e recente”, esclarece Oliveira.
Os autores destacam que os dados sobre estabilidade biológica devem embasar estratégias públicas de preservação. Conforme defende Ubirajara Oliveira, a conservação precisa atuar em duas frentes simultâneas: no combate às ameaças locais — como desmatamento, incêndios e caça — e na redução global das emissões de gases de efeito estufa.