Encontrar a própria identidade na música é um processo de desapego e precisão, onde o ritmo da vida real dita as regras do estúdio. Para o cantor e compositor carioca Relvas, seu novo lançamento é a prova de que sentimentos inesperados têm o poder de reorganizar qualquer rota. Em uma mistura fina de sentimentos reais e intuição melódica, o artista transforma uma experiência inteiramente pessoal na engrenagem principal de seu novo trabalho “Hora Errada”, mostrando que o descompasso do relógio muitas vezes esconde o ritmo perfeito.
Lançada pela GoPOP, a faixa chega com o objetivo claro de espalhar positividade e marcar histórias, conectando-se de forma genuína com o público. O lançamento, que também ganha um lyric video animado para o YouTube, celebra o prazer de colocar novos projetos na rua e a realização de um sonho que, hoje, se consolida em uma nova e madura fase profissional.
Em entrevista, Relvas abre os bastidores de “Hora Errada” e detalha o processo minucioso de produção em estúdio ao lado de músicos de peso. O artista explica como equilibrou suas principais influências musicais para moldar uma atmosfera praiana, relembra as alterações e “erros de disco” que deram identidade ao arranjo final, e reflete sobre como a forte sintonia com seu produtor consolidou a sua assinatura e a sua evolução artística. Confira o bate papo:
“Hora Errada” é descrita como um pop leve com elementos de MPB e R&B. Como foi o processo de equilibrar essas influências no estúdio para criar essa atmosfera praiana?
A criação dos arranjos das músicas é sempre a minha parte favorita do processo de produção das faixas. É nesse momento que a gente testa diferentes ideias e timbres para entender qual caminho seguir. As ideias vão surgindo e as influências acabam aparecendo naturalmente. Apesar de escutar de tudo, o Pop, a MPB e o R&B são os estilos que eu mais ouço, então inevitavelmente essas influências estão sempre presentes durante as sessões de estúdio. Então o processo de equilibrar é basicamente filtrar o que faz sentido ou não para a faixa considerando as influências.
Você convidou o produtor Raphael Dieguez para finalizar a composição logo após estruturar o refrão. Como a visão dele somou na estrutura e na identidade final da faixa?
Eu conheço o Rapha há uns 4 anos e desde então nós temos trabalhado juntos nas produções e isso com certeza tem uma influência gigante no resultado final dos trabalhos. Com o tempo de amizade e de trabalho juntos, inevitavelmente a parceria e a sintonia vão ficando maiores e mais naturais. Quanto maior a sintonia, maior é o entrosamento, e isso é fundamental para a composição. O Rapha tem a trajetória e as referências dele e eu tenho as minhas, então certamente muitas ideias são diferentes, mas é muito interessante chegar na interseção das ideias de ambos. Sem dúvidas isso acrescenta muito ao projeto. E nessa faixa não foi diferente. Por ser um produtor há anos no mercado, o Rapha produz e consome diversos estilos, então isso faz com que ele sempre traga ideias que deixam as faixas com a assinatura da produção dele.
O arranjo conta com um time de peso (Pedro Duque, Daniel Tavares e Pedro Fonte). Como funcionou a dinâmica de criação com os músicos para que os riffs de guitarra e as linhas de baixo dialogassem tão bem com a sua voz?
Trabalhar com amigos é sempre bom, mas trabalhar com amigos músicos incríveis é melhor ainda. Gravamos cada um dos elementos de forma separada e em dias diferentes, então de certa forma fomos pensando e ajustando o arranjo de acordo com os elementos e timbres que estavam sendo gravados. Tínhamos uma ideia pro arranjo no geral, mas iniciamos pelo violão e mais alguns elementos na guia. O segundo passo foi começar pela gravação da bateria do Fonte para dar uma estrutura e um direcionamento melhor pra música. Logo após, iniciamos o processo de gravação do baixo com o Raphael. Depois do baixo gravado, adicionamos as guitarras gravadas pelo Pedro e depois os teclados feitos pelo Daniel. E assim, o arranjo foi tomando forma e fomos criando juntos e a partir do que ia surgindo nas sessões. É como se fosse montar um quebra-cabeça, mas com sons, timbres e vozes.
Você mencionou que essa música já estava pronta há um tempo aguardando o momento certo. O arranjo passou por muitas modificações desde o final de 2024 até o formato que ouvimos hoje?
Tanto o arranjo quanto a melodia da música passaram por algumas modificações até ficarem da forma que estão nas plataformas. Eu escrevi a música no final de 2024 e começamos a produzir no início do ano seguinte, se não me engano. Então tivemos algumas mudanças sim. Inclusive, fiz alguns ajustes com o Rapha mais ou menos um mês antes de enviar a faixa para a distribuidora. Em um trecho específico tinham algumas linhas de guitarra que decidi tirar para dar mais espaço pro teclado que foi gravado pelo Daniel Tavares. Além disso, a introdução da música era bem diferente no início do processo de produção. Começava de uma maneira mais acústica, com alguns riffs de violão que eu tinha gravado, mas depois eu e Rapha achamos melhor deixar com um toque mais Pop, com alguns efeitos e filtros cortando os riffs da guitarra – quase como se fossem “erros de disco” justamente para fazer uma referência ao nome e história da música.

De que forma “Hora Errada” consolida a sua identidade e evidencia o seu amadurecimento artístico em comparação aos seus trabalhos anteriores?
Acredito que tanto como artista quanto como pessoa estamos sempre em um processo de evolução. Então ser artista é estar constantemente num caminho de amadurecimento artístico. Os anos vão passando e muitas coisas mudam e melhoram, muito por conta dos estudos, da dedicação e das experiências que vão acontecendo ao longo da caminhada. É inevitável que essas mudanças pessoais e profissionais não se mostrem evidentes nas produções. “Hora Errada” foi uma das últimas músicas que produzi junto com o Raphael Dieguez (tem outras no forno) e isso também é um detalhe que influencia bastante o resultado final do trabalho. Estamos produzindo juntos há mais de quatro anos, então essa sintonia também tem tornado o processo de produção cada vez mais fluido e natural. Além disso, eu me encontro em um momento no qual a minha identidade artística está muito clara para mim. Eu sei qual é a sonoridade que eu quero buscar e entregar, então fica mais fácil direcionar esse amadurecimento artístico para um caminho que eu quero seguir.
Os sintetizadores e o clima do R&B dão um toque moderno à faixa. O que não podia faltar na instrumentação para que ela mantivesse a “essência carioca” que você tanto preza?
Sem dúvidas o que não poderia faltar nos elementos da faixa para que ela mantivesse essa essência seria o baixo bem groovado junto da bateria que dão o caminho para a música junto com as linhas de guitarra conversando com as melodias das vozes. Mais do que uma assinatura da essência carioca, é uma assinatura minha como artista. Gosto de colocar a “minha marca” nas músicas, seja pela voz ou arranjo, para fazer com que as pessoas reconheçam a estética e as referências e imediatamente as associem a mim.