Por Dra. Maria Fernanda Caliani, psiquiatra
No mês dedicado às mulheres, muito se fala sobre força, conquistas e superação. Mas, segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, é preciso ampliar a conversa e incluir aquilo que nem sempre aparece nas homenagens: as dores silenciosas, as sobrecargas invisíveis e os conflitos internos que fazem parte da experiência feminina.
“A mulher foi ensinada a dar conta de tudo. E, muitas vezes, a fazer isso sorrindo”, afirma.
A sobrecarga que não aparece nas fotos
De acordo com a especialista, uma das principais queixas no consultório é a exaustão emocional. Não necessariamente ligada a um único evento traumático, mas ao acúmulo de funções: trabalho, família, autocuidado, vida social e expectativas externas.
“Existe uma carga mental constante. A mulher organiza, planeja, antecipa problemas. Mesmo quando parece descansando, está pensando no que precisa resolver.”

Esse estado contínuo de alerta contribui para índices mais elevados de ansiedade e sintomas depressivos no público feminino.
Compulsões: quando o corpo pede socorro
Outro ponto observado é o aumento de comportamentos compulsivos como forma de lidar com emoções reprimidas.
Compulsão alimentar, compras impulsivas, excesso de trabalho e busca exagerada por procedimentos estéticos são exemplos que aparecem com frequência. Segundo a psiquiatra, esses comportamentos raramente são sobre o ato em si.
“Quase sempre estamos falando de uma tentativa de aliviar dor, frustração, solidão ou sensação de inadequação.”
Hormônios influenciam, mas não definem
As oscilações hormonais ao longo da vida da adolescência à menopausa impactam o humor e a energia. No entanto, Dra. Maria Fernanda alerta para um erro comum:
“Reduzir o sofrimento feminino a hormônios é desconsiderar fatores sociais, culturais e emocionais muito mais amplos.”
Para ela, é preciso olhar a mulher em sua totalidade.
As alegrias que também merecem destaque
Mas nem só de dores se constrói a experiência feminina. A psiquiatra ressalta características frequentemente observadas entre mulheres: maior capacidade de expressão emocional, sensibilidade interpessoal e habilidade de construir redes de apoio.
“Quando uma mulher aprende a reconhecer seus limites e a respeitar sua própria história, ela desenvolve uma força muito genuína.”
Há também a alegria da conexão, da maternidade para quem escolhe esse caminho, das amizades profundas e da capacidade de reinventar-se em diferentes fases da vida.
Um convite à escuta
Neste mês da mulher, Dra. Maria Fernanda Caliani propõe uma reflexão que vai além das celebrações simbólicas. “Mais do que exaltar a força feminina, precisamos permitir que as mulheres não sejam fortes o tempo todo. Vulnerabilidade também é saúde.”
A mensagem central é clara: cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesma. E talvez seja justamente isso que ninguém conta, que ser mulher envolve dores reais, alegrias intensas e, acima de tudo, o direito de viver ambas com acolhimento e respeito.
Dra. Maria Fernanda Caliani – Psiquiatra – CRM – 140.770 / RQE 71653