A nova geração da música não está surgindo dos palcos — está surgindo de processos de reconstrução pessoal
Em um cenário global de expansão e transformação emocional, artistas como o brasileiro DJ Biaggi representam um movimento onde identidade, cura e consciência passam a definir o futuro da música
Por Marcos Pontes
A música eletrônica nunca foi tão grande — e nunca foi tão pessoal.
Segundo o IMS Business Report, principal relatório global do setor, a indústria ultrapassou a marca de US$ 11 bilhões em valor nos últimos anos. Festivais se tornaram fenômenos culturais de massa. DJs passaram a ocupar o lugar que antes pertencia exclusivamente a estrelas do rock. O som eletrônico, antes periférico, tornou-se central.
Mas o que está mudando agora não é o tamanho da indústria.
É a origem dos artistas.
Se, nas últimas décadas, a música eletrônica foi impulsionada por inovação técnica e acesso tecnológico, uma nova geração começa a emergir a partir de um vetor menos visível e mais profundo: a reconstrução pessoal.
Pesquisas conduzidas por centros como Harvard Medical School e o University College London demonstram que a música atua diretamente sobre o sistema nervoso, influenciando estados emocionais, reorganizando padrões internos e fortalecendo a sensação de identidade. Para muitos artistas, o som deixou de ser apenas produção. Tornou-se retorno.
DJ Biaggi é parte desse movimento.
Nascido em Santos, em um ambiente onde a música era estrutura cotidiana e não evento extraordinário, ele iniciou sua trajetória ainda na adolescência. Mas, como acontece com muitos artistas cuja relação com o som é estrutural — e não circunstancial — sua história não seguiu uma linha contínua.
Ela foi interrompida.
E depois, reconstruída.
Hoje, dividindo sua presença entre São Paulo e o Nordeste brasileiro, Biaggi retorna em um momento em que a música não representa apenas carreira. Representa coerência.
Nesta entrevista, ele fala sobre o silêncio, o processo de reconstrução e o momento em que entendeu que não estava voltando à música. Estava voltando ao próprio eixo.
Marcos Pontes: Existe uma narrativa comum na música eletrônica de artistas que entram cedo e permanecem continuamente ativos. No seu caso, houve uma pausa. O que aquele período representou para você?
DJ Biaggi:
Representou vida real.
Eu comecei muito novo. Aos 14 anos eu já estava tocando, já estava dentro daquele ambiente. Mas chega um momento em que outras responsabilidades aparecem, e você precisa amadurecer em outras áreas também.
Eu virei pai, mudei de cidade, comecei a trabalhar em outros setores, empreender. Eu precisava construir uma base.
Mas a música nunca deixou de existir em mim.
Ela só ficou em silêncio por um tempo.
Marcos Pontes: Quando você fala em silêncio, está falando de um afastamento profissional ou de algo mais profundo?
DJ Biaggi:
Mais profundo.
Foi um período de muito aprendizado interno.
Eu passei por experiências que me fizeram olhar para mim de um jeito diferente. E, nesse processo, você começa a entender o que realmente faz sentido e o que não faz.
A música não era uma opção que eu estava considerando racionalmente. Era algo que continuava presente, mesmo quando eu não estava exercendo.
Eu acho que, no fundo, eu precisava passar por aquilo para voltar com consciência.
Marcos Pontes: Existe hoje uma discussão global sobre a música como ferramenta de reorganização emocional. Você sentiu isso na prática?
DJ Biaggi:
Senti completamente.
Quando você volta para algo que é verdadeiro para você, existe uma sensação de alinhamento. Não é ansiedade, não é pressão. É clareza.
Você entende que aquilo não é algo externo. É parte de você.
A música sempre foi esse lugar pra mim.
A literatura científica descreve essa experiência como um processo de reintegração identitária — quando o indivíduo retorna a atividades que ativam padrões internos associados à coerência e à autorreferência. Mas, na prática, o fenômeno é menos conceitual e mais sensorial.
Ele se manifesta como reconhecimento.
Marcos Pontes: Houve um momento específico em que você entendeu que precisava voltar?
DJ Biaggi:
Não foi um momento isolado. Foi um processo.
Eu estava vivendo no Nordeste, trabalhando com outras coisas, e comecei a me reaproximar do ambiente de eventos naturalmente.
E teve também uma pessoa que teve um papel importante nesse processo. Que me incentivou, que me fez enxergar isso com mais clareza.
Não foi algo forçado.
Foi algo que foi se revelando.
Marcos Pontes: O que mudou na sua relação com a música depois dessa experiência?
DJ Biaggi:
Mudou a consciência.
Antes, eu fazia porque gostava, porque era natural, porque eu cresci nisso.
Hoje, eu faço com entendimento.
Eu entendo o que isso representa pra mim.
Não é mais sobre estar na música.
É sobre ser quem eu sou dentro dela.
Sua identidade sonora nasce do funk paulista e do eletrofunk — vertentes que ganharam força significativa na última década e que hoje influenciam produções em diferentes países. Mas o que diferencia sua presença não é apenas o estilo.
É a origem da sua relação com o som.
Em uma indústria cada vez mais acessível tecnicamente, onde qualquer pessoa pode produzir música com ferramentas básicas, o diferencial passou a ser menos sobre acesso e mais sobre identidade.
Marcos Pontes: O que você entende hoje sobre propósito?
DJ Biaggi:
Eu entendo que propósito não é algo que você cria. É algo que você reconhece.
Você pode tentar outros caminhos. Você pode construir outras coisas. Mas aquilo que é verdadeiro continua ali.
E chega um momento em que você aceita isso.
Sem resistência.
A música eletrônica continua crescendo como indústria. Mas, paralelamente, algo mais silencioso cresce dentro dela.
Uma geração de artistas cuja presença não nasce apenas da técnica ou da oportunidade — mas da experiência.
DJ Biaggi não retorna como alguém que está começando.
Retorna como alguém que compreendeu.
E, no cenário atual, onde o excesso de estímulo tornou a autenticidade um recurso escasso, essa compreensão deixou de ser um detalhe.
Passou a ser o diferencial.