Numa época em que não faltam especialistas prontos para falar sobre transformação digital, inteligência artificial e o futuro do trabalho, Elemar Jr. escolheu um caminho diferente: em vez de comentar tendências, ele construiu um método. Um framework próprio, desenvolvido ao longo de anos de prática em consultorias e assessorias para grandes empresas, que responde a uma pergunta que a maioria dos executivos nunca faz: como, de fato, se cria uma coisa que funciona?
O resultado se chama Metamodelo para Criação – e a palavra “meta” não é acidente. “Meta modelo quer dizer modelo do modelo”, explica Elemar. “O mesmo framework se aplica a qualquer coisa que você for criar: uma capacidade organizacional, uma área de inteligência artificial, um canal no YouTube ou até um filho.”
O problema que ninguém nomeia
Elemar Jr. é Microsoft Most Valuable Professional desde 2011 e Microsoft Regional Director desde 2018 – reconhecimentos concedidos a pouquíssimas pessoas no mundo pela comunidade técnica internacional. Fundador e CEO da eximia.co, empresa especializada em ajudar organizações a traduzir tecnologia em resultado de negócio, passou décadas observando um padrão recorrente: empreendimentos que fracassam, de modo geral, apresentam falta de estrutura na criação.
“Eu sempre trabalhei com criação de coisas”, diz. “Para muitas deu certo, para outras não. E, durante um bom tempo, eu não conseguia entender qual era a diferença. Quando fui analisar, percebi: tudo o que deu certo, mesmo que implicitamente, seguia o mesmo roteiro. E tudo o que não deu certo foi porque eu negligenciei alguma etapa.”
Essa observação levou Elemar a sistematizar o que ele chama de Metamodelo – um framework de sete etapas agrupadas em três fases que, segundo ele, descrevem o processo de criação de qualquer coisa com resultado durável.
O framework: sete etapas, três fases
A Fase 1 – Alicerce é onde tudo começa. Ela é composta por dois elementos que precisam ser definidos antes de qualquer ação: o Propósito – o porquê estratégico, a motivação real para criar aquilo – e os Indicadores, divididos em dois tipos: os Lag Measures, que medem o resultado final, e os Lead Measures, que medem os impulsionadores de ação ao longo do caminho.
“Sem propósito e sem indicador, nada avança”, afirma. “Isso vale tanto para implantar inteligência artificial numa empresa grande quanto para estruturar um processo de comunicação. A pergunta é sempre a mesma: para que você quer fazer isso? E como vai saber que está funcionando?”
A Fase 2 – Construção é onde o framework introduz a distinção que, segundo Elemar, separa gerentes de diretores. Um gerente, na sua leitura, resolve o problema que está acontecendo. Um diretor se preocupa em criar a estrutura para que esse tipo de problema seja resolvido melhor nas próximas vezes.
Essa fase tem três elementos: Conhecimento (o que já sabemos e o que ainda não sabemos), Estrutura (equipamentos, pessoas, ferramentas necessárias para o trabalho) e Método (os processos e funções que precisam ser definidos para que a execução seja previsível e eficiente). Só com os três estabelecidos, a Execução começa de verdade.
“Não adianta treinar a equipe e assinar uma licença de IA sem definir um método de trabalho”, exemplifica. “Da mesma forma que não adianta comprar câmera e iluminação para gravar vídeos se você não tem um processo de produção. A estrutura sem um método não faz a coisa andar.”
A Fase 3 – Consolidação começa só depois que a execução está funcionando. É quando se estabelece a Governança: quem vai olhar para os indicadores, quem assume a responsabilidade pela área ou pelo projeto. E termina com o Phase-out: o momento em que o criador se prepara para sair do circuito e transferir o ownership de forma definitiva.
“A criação só termina quando a criatura deixa de depender funcionalmente do criador”, diz Elemar. “Uma empresa que desmorona quando o dono sai não foi bem criada. Um filho que não consegue se sustentar sozinho não foi bem criado. O Phase-out não é abandono: é o objetivo.”
A prova inesperada: Gênesis
O que poderia ser apenas mais um framework de gestão ganhou uma dimensão inesperada quando Elemar encontrou, nas primeiras páginas da Bíblia, o mesmo roteiro que havia sistematizado.
Lendo o livro de Gênesis, ele identificou que os sete dias da Criação seguem, passo a passo, a sequência do Metamodelo. No primeiro dia, Deus criou a luz – alegoricamente, a definição do Propósito: o ‘porquê’ que ilumina o abismo e revela o caminho. No segundo dia, separou os firmamentos (céu e terra), criando a base do Conhecimento, a distinção entre o que se sabe e o que ainda precisa ser aprendido. No terceiro dia, criou as plantas, com cada semente gerando uma planta conforme sua natureza: a Estrutura que sustenta a criação. No quarto dia, definiu o sol, a lua e as estrelas para marcar tempos e estações – os Indicadores que permitem saber se a criação está no caminho certo. O Método veio junto: a ordem estabelecida para que cada coisa gerasse a si mesma, um processo continuado que funciona assim até hoje. No quinto e sexto dias veio a Execução – a criação dos seres vivos – e, ao final do sexto dia, a Governança: o governo da terra transferido ao ser humano. No sétimo dia, veio o descanso – o Phase-out. A criação estava completa. Podia existir por conta própria.
“Eu não idealizei o Metamodelo”, afirma Elemar, com cuidado para não transformar a observação em um discurso religioso. “Eu o identifiquei. E se você assumir que a Bíblia é o manual da humanidade – como muitos assumem – faz todo sentido que as primeiras páginas expliquem exatamente como criar. Todos os relatos bíblicos seguem o mesmo roteiro.”
A analogia com Noé e a arca, por exemplo: Deus define o propósito (salvar as espécies do dilúvio), passa o conhecimento técnico de construção para Noé, garante os materiais (estrutura), instrui o processo de embarque (método) e, no momento em que o dilúvio começa, transfere o comando da embarcação (governança) para Noé e seus filhos.
Aplicação concreta: de uma reunião com um grande banco a um canal no Instagram
Na prática de consultoria da eximia.co, o Metamodelo é usado como ferramenta de diagnóstico e direcionamento com executivos de grandes empresas e instituições. “Quando eu preciso falar com gente muito grande, o Metamodelo me salva. Me ajuda a tangibilizar e explicar uma coisa que é difícil de explicar de outra forma”, diz Elemar.
Seu uso é constante: diante de qualquer iniciativa, seja implantar inteligência artificial, estruturar uma área de dados ou criar um programa de capacitação, o framework orienta as perguntas certas na ordem certa. Qual o propósito? Como vamos medir? Que conhecimento falta? Que estrutura é necessária? Qual o método de trabalho? Quem governa? Quando o projeto caminha sozinho?
Mas o alcance, segundo Elemar, vai além do ambiente corporativo. O mesmo roteiro se aplica ao criador de conteúdo que quer crescer nas redes sociais, ao empreendedor que abre um negócio, e até ao pai que pensa na educação dos filhos. “Qualquer coisa que você for criar de forma estruturada, o Metamodelo te dá uma boa direção. Isso não é coincidência: é porque ele está alinhado com o bom senso e com coisas que as pessoas já fazem intuitivamente quando dão certo.”
Por que agora
Num cenário em que o debate sobre inteligência artificial domina eventos, publicações e estratégias de comunicação corporativa, o Metamodelo ocupa um espaço raro: é anterior à onda e independente dela. Enquanto a maioria dos especialistas do momento fala sobre IA, Elemar fala sobre como criar – e a IA é um dos objetos aos quais o método se aplica.
Com o Metamodelo, a conversa é autoral e experimentada na prática, em vez de ser só mais um falando sobre o assunto. E, como Elemar observou, o método existe há milênios – estava só esperando ser nomeado.
O material que fundamenta o framework já existe: um livro digital estruturado em capítulos, um Canvas para planejamento visual de projetos e anos de aplicação prática com algumas das maiores empresas e instituições do país, de diferentes setores.
O próximo passo, segundo Elemar, é levar o conteúdo para onde ele merece estar: as prateleiras das livrarias.
Elemar Jr. é fundador e CEO da eximia.co, Microsoft Most Valuable Professional desde 2011 e Microsoft Regional Director desde 2018. O Metamodelo para Criação está disponível em elemarjr.com.