
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), entre julho e setembro de 2026, o Brasil vai encarar um verdadeiro teste de resistência climática com a chegada do super El Niño. Enquanto o Sul deve registrar chuvas muito acima da média, o Centro-Norte vai sofrer com a seca. Diante desse cenário de extremos, a grande pergunta que fica é: o nosso planejamento urbano está pronto para o tranco? A resposta é que as cidades precisam correr atrás do prejuízo.
O professor de Engenharia Civil da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Joni Matos Incheglu, dá o alerta sobre a urgência de repensar a infraestrutura urbana e explica a complexidade do problema. “A mesma cidade que sofre com enchentes repentinas, meses depois, vive crise hídrica, o que demanda projetá-las para enfrentar os dois extremos ao mesmo tempo, com respostas bem estruturadas da engenharia. A drenagem sustentável, a recuperação da permeabilidade do solo urbano e reservatórios com uso duplo caminham nessa direção”, destaca o especialista.
Para não sermos engolidos pelos extremos climáticos, o professor aponta três frentes de ação indispensáveis: “Na geotecnia, é essencial termos contenções bem dimensionadas, drenagem profunda e estabilização de encostas, apoiadas em investigação de subsolo adequada. Na drenagem urbana, a chamada infraestrutura verde-azul, com pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e reservatórios de amortecimento; em vez de expulsar a água o mais rápido possível, retê-la e infiltrá-la. A terceira frente é a do monitoramento e da informação, com sensores e instrumentação de encostas e estruturas, gêmeos digitais e o uso de BIM no planejamento, que permitem antecipar problemas em vez de remediá-los”.
O engenheiro também faz um aviso importante sobre as normas técnicas que dão base à segurança das nossas construções, que muitas vezes já estão defasadas. “Contudo, eventos que tratávamos como excepcionais passam a ocorrer com mais frequência e magnitude, o que demanda reavaliar os limites e revisitar as premissas de projeto, como os tempos de retorno adotados para chuvas de dimensionamento da drenagem, as velocidades de vento, a estabilidade de encostas e taludes e o comportamento das fundações em solos saturados”, alerta Joni Matos Incheglu.
Além disso, é fundamental cuidar dos prédios que já existem e ter muito mais rigor na escolha dos terrenos para novas obras. “A inspeção predial periódica e programas de manutenção e reforço estrutural são fundamentais, identificando a fragilidade antes que o evento extremo a transforme em acidente. A isso, soma-se a execução de projetos de drenagem à altura do novo padrão de chuvas e, talvez, o mais importante: não adianta construir mais forte no lugar errado, sem planejamento territorial. Muitas tragédias são de localização, não de estrutura. Reavaliar critérios é reavaliar também onde se pode e onde não se pode ocupar”, pontua.
No fim das contas, a tecnologia e a ciência são as nossas maiores aliadas para evitar tragédias anunciadas. “Colocar esse aparato no centro do planejamento das cidades, e não apenas na resposta ao desastre, é a decisão mais importante que podemos tomar diante do que vem pela frente”, conclui o professor.