No coração da Baixada Fluminense, o teatro pulsa com a força do cordel e o ritmo do sertão. O espetáculo “O Patinho Feio”, da premiada Trupe Investigativa Arroto Cênico, não é apenas uma releitura de um clássico, é um manifesto poético sobre a beleza de ser quem se é. Entre versos, acordes de acordeon e uma estética brasileira vibrante, a atriz Carla Nunes brilha ao dar vida a figuras que desafiam o óbvio e convidam o público a olhar com o coração para o que é diferente.
A montagem, que completa 11 anos de trajetória da Trupe, já percorreu 20 festivais nacionais e conquistou 22 prêmios, sendo recentemente eleita pelo crítico Dib Carneiro Neto como um dos 10 melhores espetáculos infantojuvenis do país fora do eixo paulista. Mais do que um sucesso de público, a peça é um símbolo do fôlego criativo da região, unindo atores que se desdobram em cena como cantores e músicos para dar vida a uma trilha sonora original que atualiza a discussão sobre o acolhimento do outro.

Idealizado pelo grupo e produzido por Erick Galvão, Marcos Covask e Nathalia Lamim, foi contemplado no Edital Fluxos Fluminenses, e é realizado pelo Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Política Nacional Aldir Blanc. A montagem com dramaturgia de Beto Gaspari, Cesário Candhí e Marcos Covask é uma livre adaptação teatral em forma de cordel do conto homônimo de Hans Christian Andersen. O projeto está em um circuito de cinco apresentações gratuitas pelos municípios de Nova Iguaçu, Mesquita e Nilópolis e um ciclo de três oficinas formativas.
Nesta conversa, Carla Nunes nos revela os bastidores desse processo intenso de preparação e a responsabilidade de manter o frescor de uma obra que já atingiu mais de 12 mil pessoas. A atriz detalha como a musicalidade do cordel e a vivência no sertão transformam o corpo e a voz em cena, criando um encontro transformador que prova que ser diferente não é um problema, mas uma potência. Confira na íntegra:
Carla, como é para você interpretar uma história tão clássica sob a ótica do cordel e do sertão?
Foi algo que me encantou desde a primeira leitura. A adaptação para o cordel traz uma musicalidade e uma cadência muito próprias, além de situar a história em um contexto nordestino cheio de riqueza cultural. É um desafio e, ao mesmo tempo, um prazer mergulhar nesse universo com respeito e verdade, entendendo como o corpo, a voz e o ritmo se transformam dentro dessa estética.

O espetáculo exige que vocês sejam atores, cantores e músicos. Como foi o seu processo de preparação para equilibrar todas essas funções em cena?
Eu já tinha alguma vivência com canto, percussão e teatro musicado, mas nesse espetáculo os desafios são maiores. As transições são, muitas vezes, feitas em cena, com música contando a história, o que exige muita atenção, escuta e precisão. Foi um processo de disciplina e trabalho coletivo, buscando equilibrar tudo isso sem perder a presença e a verdade em cena.
A peça discute o acolhimento do “outro”. De que forma você sente que essa mensagem impacta as crianças que assistem ao espetáculo hoje?
A criança é muito sincera, ela reage de forma verdadeira ao que está vendo. E é muito bonito perceber como essa mensagem chega até elas. Em um país tão diverso como o nosso, falar sobre acolhimento e diferença é quase um gesto político, mas de forma poética. A gente convida o público a olhar com o coração e entender que ser diferente não é um problema, é potência.
Qual foi o maior desafio em dar vida a essa montagem que já percorreu tantos festivais e recebeu tantos prêmios?
Acho que o maior desafio é manter o frescor e a verdade a cada apresentação. A gente precisa estar sempre disponível para o jogo, para a escuta e para a troca real com a plateia, que é o que sustenta a vida da peça.
