
O mercado global de medicamentos emagrecedores, impulsionado por substâncias como a semaglutida, enfrenta uma reconfiguração significativa com a expiração da patente do princípio ativo em março de 2026. Essa data marca o fim da exclusividade de produção para o laboratório dinamarquês Novo Nordisk em mercados estratégicos como China, Índia, Turquia, Canadá e Brasil. Juntos, esses países representam aproximadamente 40% da população mundial e cerca de um terço das pessoas com obesidade no planeta, tornando a concorrência por esses mercados um ponto central para a indústria farmacêutica.
A dinâmica atual do setor é caracterizada por um crescimento sem precedentes dos medicamentos baseados em incretinas, como os agonistas de GLP-1 (semaglutida) e os duplos agonistas de GLP-1 e GIP (tirzepatida). As projeções de vendas globais para esses fármacos foram revisadas de US$ 100 bilhões para US$ 150 bilhões em apenas um ano, refletindo uma demanda muito acima do esperado. Este cenário de expansão acelerada coincide com o chamado “Abismo de Patentes 2.0”, um período entre 2025 e 2029 em que diversas patentes expiram, gerando perdas líquidas globais estimadas em US$ 90 bilhões e abrindo caminho para genéricos e biossimilares.
Nesse ambiente altamente competitivo, o desempenho dos laboratórios é crucial. A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic (semaglutida), enfrentou desafios com o desempenho de seu mais recente medicamento emagrecedor, o CagriSema. Em contraste, o sucesso do Zepbound, da concorrente Eli Lilly, que utiliza a tirzepatida, impulsionou o valor de mercado da Eli Lilly para além de US$ 1 trilhão, enquanto as ações da Novo Nordisk registraram queda. Essa disputa direta entre os gigantes farmacêuticos sublinha a intensidade da corrida por inovação e fatia de mercado.
A busca por novas parcerias e formatos de administração também se intensifica. No final de 2025, o laboratório indiano Lupin firmou um acordo com a chinesa Gan & Lee Pharmaceuticals para a distribuição exclusiva na Índia da bofanglutida, um análogo de GLP-1 em fase de teste que promete menor frequência de injeções. A Lupin, que já atua no Brasil através da MedQuímica, e a Gan & Lee, que negocia parcerias com o governo brasileiro, exemplificam a estratégia de expansão global. Paralelamente, a indústria investe em versões orais para superar o medo de agulhas, que afeta mais de 60% dos adultos. A Novo Nordisk planeja lançar o Wegovy em comprimido em janeiro de 2026, enquanto a Eli Lilly espera aprovação para seu orforglipron oral em março do mesmo ano, com projeções de que o mercado de versões orais atinja US$ 23 bilhões até 2030, com a Eli Lilly potencialmente capturando 60% desse segmento.
A transformação do mercado também se reflete na adoção de programas de venda direta ao paciente (DTP) por grandes farmacêuticas, como Novo Nordisk e Eli Lilly. Esses programas combinam preços transparentes, telessaúde e entrega em domicílio, buscando contornar os controles de preço de planos de saúde e sistemas nacionais. O CEO da Novo Nordisk, Maziar Mike Doustdar, destacou que os medicamentos para obesidade são particularmente adequados para o modelo de venda direta. Com inovações futuras como sprays nasais de semaglutida em desenvolvimento, o cenário aponta para um mercado de medicamentos emagrecedores cada vez mais influenciado por estratégias comerciais e relações internacionais, para além dos avanços científicos.